Estudo avalia o comportamento esperado de chuva e temperatura entre julho de 2026 e abril de 2027 e identifica novembro como o período de maior criticidade para a agricultura brasileira.
O fortalecimento do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026 deverá alterar de forma significativa o comportamento climático no Brasil durante a safra 2026/2027. É o que aponta um relatório elaborado pela IMBR Agro, com base em projeções do Oceanic Niño Index (ONI), da NOAA, e em dados climáticos do ERA5. O estudo analisa o período entre julho deste ano e abril de 2027 e cruza as anomalias esperadas de chuva e temperatura com as principais culturas agrícolas de cada região do país, permitindo uma leitura da exposição climática da produção agropecuária.
Segundo o levantamento, 20 das 27 federações (26 estados e o Distrito Federal) devem encerrar o período com precipitação abaixo da média histórica, concentradas principalmente nas regiões Norte e Nordeste. No sentido oposto, o Sul apresenta tendência de volumes de chuva superiores ao histórico, padrão característico de eventos de El Niño. O maior déficit acumulado é projetado para o Pará (-459 mm), seguido por Roraima (-395 mm) e Maranhão (-313 mm), enquanto os maiores excedentes são esperados para Rio Grande do Sul (+542 mm), Santa Catarina (+433 mm) e Paraná (+383 mm).
Além da redução das chuvas em parte do território nacional, o relatório indica um aumento generalizado das temperaturas. As 27 unidades apresentam anomalias positivas de temperatura ao longo da janela analisada, com média nacional de +0,47 °C em relação ao histórico. Os maiores desvios são esperados em Roraima (+1,03 °C), Pará (+0,83 °C) e Rondônia (+0,70 °C). O pico do aquecimento ocorre em novembro de 2026, mês que também concentra o maior déficit hídrico observado nas projeções.
De acordo com o estudo, novembro de 2026 reúne os principais indicadores de risco climático da safra. Nesse mês, o déficit acumulado entre os estados com anomalias negativas de precipitação atinge 905 milímetros, ao mesmo tempo em que o país registra sua maior anomalia positiva de temperatura, com média de +0,98 °C. O período também apresenta a maior diferença de precipitação entre a unidade da federação mais seca e a mais chuvosa, evidenciando elevada variabilidade espacial das condições climáticas.
O relatório também avalia os impactos sobre as principais culturas agrícolas em cada região, considerando a participação econômica de cada atividade e suas janelas de maior sensibilidade climática. No Norte, onde a soja representa 33% do Valor Bruto da Produção (VBP) regional, a combinação entre déficit de chuva durante a semeadura e temperaturas acima da média resulta em classificação de alta exposição climática. O mesmo cenário é observado no Nordeste, onde a soja responde por 32% do VBP regional.
No Centro-Oeste e no Sudeste, entretanto, o estudo chama atenção para um comportamento diferente. Embora o acumulado de chuva ao longo dos dez meses seja positivo nas duas regiões, os meses correspondentes à semeadura apresentam déficit hídrico. No Centro-Oeste, a janela crítica registra redução de 48 milímetros, enquanto o acumulado total do período permanece positivo em 165 milímetros. No Sudeste, a janela de maior sensibilidade apresenta déficit de 99 milímetros, apesar do saldo positivo de 55 milímetros no período completo. Segundo os autores, a análise baseada apenas no acumulado anual pode mascarar riscos relevantes para culturas como soja, cana-de-açúcar e café.
Na região Sul, o comportamento esperado é distinto. A projeção indica excedente de chuva durante a janela mais sensível para a soja, principal cultura regional, alterando a natureza do risco climático. Em vez da preocupação com estiagem, o excesso hídrico pode aumentar a exposição a problemas relacionados ao plantio, sanidade das lavouras e operações de colheita.
O relatório conclui que os impactos do El Niño não deverão ocorrer de forma homogênea no território brasileiro. Ao integrar informações sobre clima, calendário agrícola e importância econômica das culturas, o estudo fornece uma leitura regionalizada da exposição climática, subsidiando análises voltadas ao planejamento agrícola, à gestão de riscos e ao mercado de seguros rurais.






